Em bate-papo no Congresso Brasileiro de Psiquiatria, sacerdote compartilha experiência com a depressão e aborda preconceito contra transtorno mental
SÃO PAULO - Em uma sala lotada durante o 43º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, no Centro de Convenções do Distrito Anhembi, em São Paulo, uma pergunta feita pelo padre Marcelo Rossi provocou a reflexão da plateia formada por médicos e especialistas: "Quem desligou o celular pelo menos uma vez na última semana?". Poucas mãos se levantaram.
A provocação não era propriamente uma crítica à tecnologia, mas um convite a pensar sobre a dificuldade de interromper a rotina, respeitar os próprios limites e reconhecer a necessidade de descanso. Em uma sociedade marcada pela pressa e pela conexão permanente, o sacerdote chamou atenção para a importância de cuidar de si.
Ao longo do bate-papo, mediado pelo presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Antônio Geraldo da Silva, e pelo psiquiatra Fábio Silva, padre Marcelo Rossi apresentou a metáfora do que chamou de "tripé humano", formado por corpo, mente e espírito.
Para o sacerdote essas três dimensões precisam estar em equilíbrio para que haja bem-estar. A ideia conduziu boa parte de sua reflexão sobre saúde mental, espiritualidade e os desafios da vida contemporânea.
Da experiência pessoal à luta contra o preconceito
O momento em que o sacerdote compartilhou a própria experiência com a depressão foi um dos mais marcantes da conversa. Diante de uma plateia de profissionais acostumados a lidar com o sofrimento psíquico, o padre falou sobre o impacto da depressão em sua própria vida, que começou a enfrentar em 2013.
O sacerdote descreveu um período de sofrimento intenso, marcado pela perda do paladar e do olfato, além de uma profunda falta de disposição. Na época, chegou a pesar cerca de 60 quilos.
O relato também trouxe aspectos de sua história familiar. O religioso falou sobre o suicídio do avô, uma experiência que marcou a família e teve repercussões na vida da mãe. Relembrou ainda o uso de esteroides anabolizantes na juventude, quando cursava educação física e buscava o ganho de massa muscular.
Ao compartilhar essas experiências, o sacerdote também reconheceu que já teve preconceito em relação à psiquiatria e ao uso de medicamentos psicotrópicos.
A abertura para falar sobre a própria vulnerabilidade reforça uma mensagem importante: transtornos mentais não devem ser tratados como fraqueza, falta de fé ou incapacidade de enfrentar os problemas. Combater o preconceito é também estimular que as pessoas reconheçam seu sofrimento e procurem ajuda especializada.
O que os pensamentos têm a ver com a saúde mental?
Outro ponto de destaque da palestra foi a reflexão sobre a influência dos pensamentos na maneira como as pessoas vivem e interpretam suas experiências.
Para abordar o tema, padre Marcelo recorreu à bíblia, ao citando uma passagem de Provérbios 4:23: "Tenha cuidado com o que você pensa, pois a sua vida é dirigida pelos seus pensamentos".
A reflexão permite estabelecer um diálogo com a terapia cognitivo-comportamental (TCC), abordagem psicoterapêutica que trabalha a relação entre pensamentos, emoções e comportamentos.
Na TCC, a maneira como uma pessoa interpreta determinada situação pode influenciar suas reações emocionais e comportamentais. Pensamentos automáticos e padrões de interpretação disfuncionais, por exemplo, podem contribuir para sentimentos de angústia e comportamentos de esquiva.
Nesse contexto, aprender a identificar e questionar determinados padrões de pensamento é uma das estratégias utilizadas no processo terapêutico.
É importante, porém, compreender que cuidar dos pensamentos não significa controlar tudo o que se passa na mente, tampouco significa que o sofrimento psíquico decorra apenas de pensamentos negativos. A saúde mental envolve diferentes fatores, e o tratamento dos transtornos mentais exige avaliação e acompanhamento adequados.
A espiritualidade também pode representar uma fonte de apoio e significado para muitas pessoas. Isso não significa, entretanto, que práticas religiosas substituam a psicoterapia ou o tratamento psiquiátrico quando necessários.
Corpo e mente: a importância dos hábitos cotidianos
A formação de padre Marcelo em educação física também apareceu na discussão sobre os cuidados com o corpo e seus reflexos na saúde mental.
Durante o bate-papo, ele apresentou o acrônimo D.O.S.E., relacionado a quatro substâncias associadas ao bem-estar: dopamina, ocitocina, serotonina e endorfina.
A prática regular de atividade física, a alimentação equilibrada e a exposição à luz solar foram apontadas como aspectos importantes dos cuidados cotidianos.
O sacerdote também chamou atenção para os problemas relacionados à qualidade do sono, ao destacar que noites mal dormidas podem comprometer o bem-estar.
A mensagem central é que a saúde mental não deve ser pensada de maneira isolada. Os hábitos cotidianos, o cuidado com o corpo e a atenção às necessidades emocionais fazem parte de uma perspectiva mais ampla de saúde.
Como parte das iniciativas contra o julgamento negativo, medo ou discriminação direcionado a pessoas com transtornos mentais, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) nomeou padre Marcelo embaixador de suas campanhas nacionais contra o estigma, o bullying e a psicofobia.
A proposta é ampliar o diálogo com a sociedade e contribuir para que o sofrimento psíquico seja reconhecido e acolhido, sem julgamentos.
O 43º Congresso Brasileiro de Psiquiatria, iniciado no dia 28 de outubro, ocorre até este sábado (31).
*A jornalista faz a cobertura do evento a convite da ABP.
Fonte: jc.uol.com.br